segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Solidão Ontológica


Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.

Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

António Gedeão

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Problemas de Expressão

Esta noite sonhei contigo...
Sonhei que estavas a morrer, mas estavas à espera que eu chegasse a casa para te despedires de mim: "Oh minha riqueza, não chores..." - disseste quando me viste entrar.
Falaste-me calmamente, confortaste-me e, com naturalidade, fizeste-me crer por momentos que é fácil aceitar tudo o que está a acontecer. Falaste-me como provavelmente nunca mais te vou ouvir falar comigo...
Quem é que eu posso responsabilizar? Os médicos? Os hospitais? O Serviço de Saúde inteiro? Quem é que eu posso culpar? Preciso de culpar alguém... Estas coisas não podem simplesmente ter o seu direito a ser inexplicáveis e passarem incólumes! A dor é demasiada para que não responsabilize alguém, culpe alguém, faça alguém pagar ou sentir-se ainda pior do que eu me sinto! É inaceitável que eu não possa despejar toda a minha raiva e mágoa em alguém!!! ... Deus?! Hmmm, mais perto: o meu psicólogo!
No meu sonho, tu tinhas decidido morrer, tinhas preferido a morte a uma existência miserável! Será que é isso que queres, que anseias? Será que é isso que te faz ter pesadelos de noite: não a morte, mas sim a tua sobrevivência?

Podes, por favor, esperar que eu chegue a casa para te despedires de mim?...

sábado, 21 de novembro de 2009

Estava uma lesma na minha banheira!!!

Evitei escrever porque sei que a única coisa na minha cabeça serias tu! Só conseguia pensar em ti… Enquanto trabalhava, comia, tentava dormir…

Agora estou mais calma. O pânico acalmou e eu acalmei também. Agora tenho-te aqui ao pé de mim, ouço-te a dormir na paz do homem bom, puro e valente que és. Nunca te disse o quanto te amo, nunca to vou dizer, estou certa, mas também sei que o adivinhas. Há coisas para as quais nunca estaremos preparadas por mais que as tentemos meter na cabeça ou na alma. Nunca vou estar preparada para te perder e sei-o tão bem agora como sempre o soube! Pensava, e ainda penso, que esse sentimento não passa de egoísmo. Quando não queremos perder alguém, não é pela pessoa que tememos, é por nós! Nós é que sofremos a sua ausência, não o oposto. Aliás, nunca o oposto! E admito que muito menos quero perder na minha vida alguém que me ama por aquilo que eu sou. Sem complexidade, drama, teatro, sem nada mais do que aquilo que eu simplesmente sou. É um grande privilégio ser amada apenas por quem sou, pelo que sou (que na verdade é tão pouco…) e sinto muita gratidão por tamanho sentimento, também não é que tenha muita gente capaz de tamanha proeza.
Já sou grande o suficiente para saber que tudo passa… Deixei de contar o sete, como deixei de contar o doze, como deixei de contar o quinze e como deixarei de contar o vinte e quatro… Tenho a certeza disso, que vencerei tudo, vencerei todos e serei sempre a primeira a sair vitoriosa seja de que guerra em que me metam! Mas há coisas que nunca se esquecem, infelizmente! Há mágoas que nunca passam, palavras que nunca se apagam, gestos que nunca se despegarão da nossa pele. Infelizmente, sou uma das pessoas que nunca esquece. Pensava que isso era mau, amaldiçoava essa “memória” e pensava que seria tão bom se esquecesse, se deixasse de me importar… Mas quando reparo bem nos que esquecem e nos que deixam de se importar, percebo como estou a ser ridícula. Invés de uma maldição o que eu tenho é uma bênção! Se me dizem que mais nada há a descobrir, mais nada a falar, mais nada a escrever porque tudo já foi dito antes, só me posso rir da ingenuidade, ter pena da involução! Porque o meu maior mistério sou eu mesma e esse estou tão longe de desvendar. Olhar para mim, entender-me, prever-me, conhecer-me nunca me vai fazer conseguir fazer perceber os outros, prevê-los, mas isso nem sequer se coloca como um problema, bem mais se assemelha a um desafio, a um grande desafio.

Agora que estás a dormir e eu consegui finalmente a paz para conseguir escrever, penso em como vejo as coisas de forma tão diferente e, no entanto, tão mais severa do que já via antes. Os que antes desprezava, agora são-me indiferentes, a falta que me angustiava, dá-me vontade de troçar agora, a ignorância de que desdenhava é agora alvo da minha pena. Dá-me gozo ver e ouvir os que me pre-assumem e que não conseguem alcançar nunca mais do que o vislumbre das sombras na parede para onde lhes viraram a cara, um gozo tão diabolicamente delicioso que tenho medo que se torne um vício.
Ter-te quase perdido que vales tanto para mim, que verdadeiramente sustentas a minha vontade de viver, só me levou a conhecer-me ainda melhor e a descobrir dentro de mim uma verdade: o tempo que eu perco com quem quero acreditar que vale a pena. Já o disseste antes, lembro-me, agora é a minha vez de o dizer: não perco mais tempo com quem não consegue interessar.
Bem, eles, na verdade, não interessam!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vitória Relativa, Derrota Esmagadora

Feitas as Legislativas… PS ganha as eleições com uma percentagem de 36,6 (96 deputados) , PSD vem em segundo lugar com 29,1 (78 deputados), CDS-PP passa a ser a terceira força política com 10,5 (21 deputados), BE aparece em quarto lugar com 9,9 (16 deputados) e a CDU passa a ser a quinta força política com 7,9 (15 deputados).
Para Ferreira Leite “chegou a hora da verdade”, como lemos nos seus cartazes, e a senhora teve apenas mais sete mil votos que Santana Lopes, senhor que garantiu ao PSD o pior resultado de sempre e nem sequer se rebaixou a ir dar um ar de sua graça no hotel da Avenida da Liberdade onde decorreu a noite eleitoral do PSD. Luís Filipe Menezes, na sua boa educação e decência de sempre, teve a cortesia de dizer: “Tudo farei para que o próximo líder seja alguém que represente o país novo, moderno. Alguém jovem, arejado, fresco.” Se eu fosse a ex-ministra da Educação e das Finanças, Manuela Ferreira Leite, tê-lo-ia deitado no meu colo e dado umas boas palmadas naquele rabiosque de Menezes para aprender a ter boas maneiras e a respeitar os mais velhos.
Mighty Socrates bem que pode festejar com alegria: “Esta foi uma vitória da decência e da elevação em política. A nossa democracia respira bem e dá sinais de vitalidade.”: disse para todos os que quisessem e não quisessem ouvir (leia-se Manuel Ferreira Leite e Cavaco Silva). E, em relação à vitória do PS, apenas tenho algo a dizer para quem ainda não sabe: pela mão do PS entrará no Parlamento o primeiro deputado assumidamente homossexual, Miguel Vale de Almeida, eleito por Lisboa. Acho que foi a única coisa que me fez sentir satisfeita por saber.
“No Domingo seremos muito mais.” E não é que foi verdade? Valeu a pena o Paulinho ter tirado umas férias para o bronze e para o branqueamento da dentadura (ele é o verdadeiro político tunning), valeu a pena ter amuado por não lhe terem dado os 10% há quatro anos atrás, porque o povo português tem memória de peixinho (olha uma alga, olha uma alga, olha uma alga…) e resolveu dar-lhe agora os 10% como recompensa. Tão feliz que estava que nem conseguia disfarçar o sorriso, tinha uns olhos capazes de alumiar uma aldeia inteira, começou a discursar antes de o PM terminar o seu discurso de vitória no Hotel Altis.
Ora, e o caro Louçã… Estou em crer que enfrentará o pior período político da sua vida, isto apesar de ter duplicado a sua representação para 16 deputados. Como escreveu Pedro Tadeu no Diário de Notícias: “Ganhar é uma grande maçada”. Uma coisa é ajudar a aprovar uma lei sobre o casamento homossexual, outra coisa é nacionalizar a Galp ou a EDP. Aliado a este jogo de cintura exigir-se-á ao Louçã o alargamento da garganta de forma a engolir os sapos que já se enfileiram e, acima de tudo, ter o Paulo Portas não só em frente, como à frente.
Jerónimo de Sousa de certeza que chupou uns bons Kompensan antes de discursar e eu consigo entendê-lo, que também eu sofro muito do estômago, infelizmente. A ele será exigida a mesma garganta e o mesmo jogo de cintura que a Louçã, mas como Jerónimo e Louçã não se comem, até será interessante ver que novas invenções brotarão das bancadas do Parlamento.
Feitas as Legislativas, venham as Autárquicas!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rosa Choque

"Algum desgosto prova muito amor, mas muito desgosto revela demasiada falta de espírito." - William Shakespeare

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Boletim de Vacinas

Hoje, quando acabei de subir as escadas que me conduzem à entrada da porta do meu apartamento no segundo andar e tirei a carteira para passar o passe de forma a abrir a porta, percebi que algo estava realmente errado. Tive de me sentar nas escadas do prédio para me rir sem cair! No Domingo já me devia ter realizado disso depois de ter dito que 8+8 eram 10, mas mesmo assim quis acreditar que não enganando-me a mim própria: isto é cansaço… se calhar foi má ideia não ter férias este ano… Mas a verdade é que “algo” não pode estar bem. Tem sido um ano louco e sei que é irracional desejar que o ano vire, mas… Bem, eu não preciso da viragem do ano, na verdade só preciso da viragem do mês. Tudo será diferente, mais uma vez! Todos os meses a minha vida tende a mudar radicalmente e como eu gosto disso. Mas apesar de a minha vida mudar, as coisas à minha volta parecem sempre as mesmas, as pessoas sempre as mesmas, imersas na sua bílis negra.
Depois do pânico, da revolta, do medo e finalmente da aceitação do cancro, do tumor maligno que ia de certeza acabar comigo em menos tempo que tinha previsto… tudo se desmancha e tudo volta a ser mais do mesmo. Quase que teve piada! Podemos brincar umas com as outras dizendo que é a senilidade ou a menopausa que chegaram mais cedo, mas sabemos que estes 27 anos, na realidade, correspondem a muitos mais. Os anos de vida pesam-se em dor e quando penso nisso até custa a acreditar em tudo o que já vivemos, tudo o que já passámos, tudo o que já vencemos e alcançámos. Foi muito mais do que alguma vez acreditaria ser capaz de abarcar, tenho orgulho em mim por ser muito mais do que alguma vez acreditaria.
Passadas as águas, o que mais custa é perder as pessoas. Há pessoas da minha vida de quem me lembro todos os dias. Para uma pessoa tão distraída como eu, este é fenómeno exuberante! Mas é verdade, a injustiça da falta, a dor da ausência são coisas que não me passam. Tatuam-me de verdade… Um dia, fico cega com tanta coisa que vejo sem estar na minha frente!
Mas todos os dias são bons, todos os dias são saborosos! Uma viagem a Sete Rios e descobrir um alfarrabista que afinal era tudo menos desconhecido, apanhar o conhecido suburbano até ao Oriente e ver o pôr-do-sol. Sintra, teatro, cinema, jardins, Lisboa INTEIRA para mim, coisas novas, pessoas novas, experiências novas, todos, todos os dias. E, no entanto, se puder não abdicar da mesma esplanada vermelha onde tomo o café da tarde todos os dias… não abdicarei nunca! O paradoxo entre o prazer do tudo renovado e o prazer do conhecido e seguro. Saber que posso tentar o Sol a derreter as minhas asas e saber que lá em baixo estarão os de sempre para me agarrarem.
A minha vida é uma maravilha, depois da sombra da morte ter passado, parece que só coisas boas chegam a mim. Olho para os outros, vejo-os na minha vida antiga: o trabalho de sempre, a rotina de sempre, as pessoas de sempre com as conversas de sempre. Pessoas que me deixam, pessoas que me fogem, pessoas que me desiludem, casamentos que ruem, amizades que se desfazem, namoros que me horripilam… vidas que acabam… Na minha fase boa em que tudo é novo e todos os dias bebo em golfadas a surpresa, o inesperado, a independência, que me bebo a mim própria mais eu em todos os extremos que nunca fui. Eu, eu, eu em todas as minhas vertentes puras e extremistas e como nunca mais quero deixar de ser EU!
Mas depois do meu dia em que fui rainha no meu mundo de fantasia, heroína do meu Destino, dona do meu querer… nada me sabe tão bem como te encontrar, como sentar o meu à vontade à boca de cena contigo, como poder abraçar-te e ter a certeza absoluta que vou sentir o teu Boletim de Vacinas no bolso direito interior do teu casaco.