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terça-feira, 20 de julho de 2010

Capaz de emborcar uma inteirinha de absinto!

Palavras insípidas, intenções falsas, pensamentos descontrolados e sentimentos angustiantes que levam a respostas insípidas...
Gentilmente, quando a noite cobre o Homem, eis que o meu cavaleiro fantasma vem ter comigo. Há tanto tempo que não o via... Julgava-me livre dele, melhor, julgava a todas as suas perguntas ter respondido de uma vez por todas. Mas não, as mesmas perguntas me traz ele, agora mais impaciente pelas respostas do que antes. Sempre o mesmo ritual, sempre a mesma conversa e sempre a mesma angústia que me corrói o interior, o desespero de não entender o que ele me diz, de não saber qual é a resposta que ele quer que eu lhe dê!
Sinto as saudades a escorrerem para dentro de mim, a pesarem-me no interior e a minha força a sumir vertiginosamente. Sinto a saudade a amargar-me a boca, a arranhar-me a garganta, a arrepiar-me a pele e a empurrar-me os olhos para o chão.
Meu querido, meu sol, minha paixão, minha ternura... meu amor! Onde estás tu?
Volta para mim! Volta a dourar os meus dias, volta a acalmar as minhas noites... Traz a minha parte boa de volta e faz-me feliz como só tu soubeste fazer...
Mas enquanto tu não vens, amor, meu cavaleiro fantasma, senta-te aqui junto a mim, dediquemo-nos ao que aqui te traz...

sábado, 21 de novembro de 2009

Estava uma lesma na minha banheira!!!

Evitei escrever porque sei que a única coisa na minha cabeça serias tu! Só conseguia pensar em ti… Enquanto trabalhava, comia, tentava dormir…

Agora estou mais calma. O pânico acalmou e eu acalmei também. Agora tenho-te aqui ao pé de mim, ouço-te a dormir na paz do homem bom, puro e valente que és. Nunca te disse o quanto te amo, nunca to vou dizer, estou certa, mas também sei que o adivinhas. Há coisas para as quais nunca estaremos preparadas por mais que as tentemos meter na cabeça ou na alma. Nunca vou estar preparada para te perder e sei-o tão bem agora como sempre o soube! Pensava, e ainda penso, que esse sentimento não passa de egoísmo. Quando não queremos perder alguém, não é pela pessoa que tememos, é por nós! Nós é que sofremos a sua ausência, não o oposto. Aliás, nunca o oposto! E admito que muito menos quero perder na minha vida alguém que me ama por aquilo que eu sou. Sem complexidade, drama, teatro, sem nada mais do que aquilo que eu simplesmente sou. É um grande privilégio ser amada apenas por quem sou, pelo que sou (que na verdade é tão pouco…) e sinto muita gratidão por tamanho sentimento, também não é que tenha muita gente capaz de tamanha proeza.
Já sou grande o suficiente para saber que tudo passa… Deixei de contar o sete, como deixei de contar o doze, como deixei de contar o quinze e como deixarei de contar o vinte e quatro… Tenho a certeza disso, que vencerei tudo, vencerei todos e serei sempre a primeira a sair vitoriosa seja de que guerra em que me metam! Mas há coisas que nunca se esquecem, infelizmente! Há mágoas que nunca passam, palavras que nunca se apagam, gestos que nunca se despegarão da nossa pele. Infelizmente, sou uma das pessoas que nunca esquece. Pensava que isso era mau, amaldiçoava essa “memória” e pensava que seria tão bom se esquecesse, se deixasse de me importar… Mas quando reparo bem nos que esquecem e nos que deixam de se importar, percebo como estou a ser ridícula. Invés de uma maldição o que eu tenho é uma bênção! Se me dizem que mais nada há a descobrir, mais nada a falar, mais nada a escrever porque tudo já foi dito antes, só me posso rir da ingenuidade, ter pena da involução! Porque o meu maior mistério sou eu mesma e esse estou tão longe de desvendar. Olhar para mim, entender-me, prever-me, conhecer-me nunca me vai fazer conseguir fazer perceber os outros, prevê-los, mas isso nem sequer se coloca como um problema, bem mais se assemelha a um desafio, a um grande desafio.

Agora que estás a dormir e eu consegui finalmente a paz para conseguir escrever, penso em como vejo as coisas de forma tão diferente e, no entanto, tão mais severa do que já via antes. Os que antes desprezava, agora são-me indiferentes, a falta que me angustiava, dá-me vontade de troçar agora, a ignorância de que desdenhava é agora alvo da minha pena. Dá-me gozo ver e ouvir os que me pre-assumem e que não conseguem alcançar nunca mais do que o vislumbre das sombras na parede para onde lhes viraram a cara, um gozo tão diabolicamente delicioso que tenho medo que se torne um vício.
Ter-te quase perdido que vales tanto para mim, que verdadeiramente sustentas a minha vontade de viver, só me levou a conhecer-me ainda melhor e a descobrir dentro de mim uma verdade: o tempo que eu perco com quem quero acreditar que vale a pena. Já o disseste antes, lembro-me, agora é a minha vez de o dizer: não perco mais tempo com quem não consegue interessar.
Bem, eles, na verdade, não interessam!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A Semântica de Deixar: requero-te

São 674 páginas sobre a semântica do verbo deixar arduamente (suponho!) produzidas por Augusto Soares da Silva.

Vá, não baixem já a janela a pensar que esta entrada trata sobre pseudo-intelectualismo linguístico. Sim, convenhamos que nada caracterizado de intelectualismo linguístico possa ser dito ou escrito sem se encontrar devidamente acompanhado do respectivo prefixo “pseudo”.

Mas voltando à vaca fria (eu, portanto): isto é interessante, pessoas! Atentem! Como é que se podem escrever 674 páginas sobre a palavra deixar? Como catalogar este admirável senhor? Muitos e variados adjectivos me ocorrem (confesso) mas revelarei apenas um substantivo como forma de assegurar a validade desta minha intervenção: respeito.

Esta não é apenas uma contribuição para a abordagem cognitiva em Semântica Lexical, esta é a História de toda a vida humana do ponto de vista de uma só palavra. Portanto, a ver vamos: se deixar pode ser entendido com uma suspensão da acção na sua acepção mais vulgar: “O Osvaldo deixou a nota de cem na mesa-de-cabeceira.”, o verbo no Modo Imperativo já aparece como um impulso para a acção: “Osvaldo, deixa a nota de cem na mesa-de-cabeceira.”. Mas deixar também pode ser entendido como uma não intervenção: “Cipriano pediu-me para ir ver um concerto de Come Restus e eu deixei-o ir.”. Apesar de conhecer o carácter susceptível de Cipriano, eu não intervim e autorizei a sua vontade. No entanto, se eu desejasse bem ao Cipriano expor-lhe-ia um discorrer de argumentos que o colocariam mais ciente do que é um concerto de Come Restus e então: “Perante a razão dos argumentos que invoquei, Cipriano deixou-se convencer.” Que é como quem diz: deixou-se levar. No entanto, deixar aqui ainda mantém o valor de não intervenção. Eu não me oponho a Cipriano em primeiro lugar e em último Cipriano não se opõe a mim, tal como o assunto não se oporá a mim se eu o deixar de lado. Do mesmo modo, se eu me deixar cair desta cadeira, também se trata de uma autorização, eu não intervenho na minha própria queda. Mas deixar o Cipriano ir ver Come Restus e deixar o Cipriano em Come Restus já é completamente diferente, acima de tudo para o Cipriano, que é um tipo sensível.

Se tudo isto vos está a deixar na dúvida, compliquemos um pouco mais o assunto. Eu amo muito o meu Anacleto, mas ele tem um defeito que não suporto em ninguém: deixa-se influenciar com muita facilidade. Ora, por isto eu estou a pensar em deixar o meu Anacleto! Podia deixar tudo como está e deixar as coisas andarem, mas ao deixar o Anacleto, vou finalmente deixá-lo em paz, deixá-lo ser quem ele é na verdade. Não o vou expulsar logo de casa, vou dizer-lhe que se deixe ficar, mas mais cedo ou mais tarde ele terá de deixar aquela que foi a nossa “toca” (a bela casa de praia que a minha avó me deixou) e deixaremos de nos ver e, eventualmente, deixaremos de nos falar. As minhas amigas dizem-me para não o deixar, que ele é o melhor homem que alguma vez encontrei, mas a minha decisão está tomada e nunca deixei de cumprir com aquilo que decidi.

Mas isto não é uma entrada sobre o Anacletinho, é uma entrada sobre deixar e não vou deixar que a divagação se ocupe de mim. Em suma, podemos observar que o verbo deixar compreende dois grupos semânticos que se opõem apenas quanto à construção conceptual do objecto sintáctico: suspender a interacção e não se opor ao que se apresenta como dinâmico. As duas categorias são funcionalmente diferentes, apesar de ambas se gramaticalizarem, mas não obstante a sua tensão homonímica, o “complexo” de deixar apresenta uma certa coerência interna (digam lá se não é verdade!). Deixar apresenta-nos um fundo imagético, exprime um processo conceptual e semanticamente marcado pela negação, deixar é um verbo onomasiologicamente saliente, não apenas nos domínios psicológico, social e moral, mas também no domínio espacial.

A significação de deixar é um processo contextual flexível e é devido a essa maleabilidade que todos nós podemos resumir a maior parte da vida humana a deixar, pois o comportamento de deixar revela, quer no uso actual, quer diacronicamente, importantes mecanismos, modelos cognitivos e modelos culturais e sociais.