Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
Um dia sucede ao outro, estação após estação, somam-se os anos e o tempo passou. Anos de dor, Verões de angústia, dias de solidão, minutos de desespero. Dia após dia, hora após hora, momentos amontoados que todos somados podem ser tudo ou podem ser nada. O grande arquitecto fará a soma, o resultado será sempre uma incógnita mas a essência será sempre positiva.
Viro a minha vida do avesso como quem vira uma camisola procurando a etiqueta: a etiqueta define sempre o avesso nas costas, o decote no peito. Assim se definem os caminhos: o avesso nas costas, o decote no peito, o passado inalterável lá atrás mas sempre pesado na nuca, o decote descobre a esperança de um peito que teima em não deixar de acreditar!
Procura reconforto nas palavras, descobre compreensão nos olhares, recupera ânimo nos gestos, fecha os olhos e segue, minha alma, teimosamente cega percorre esse caminho mesmo que as vozes dos conhecidos te gritem que pares mesmo que os risos dos desconhecidos te façam duvidar do chão que antecipa o pé: teimosamente segue.
Tudo o que já foi soberbo, já caiu, tudo o que já foi certo, já foi desmentido, tudo o que já foi prometido, já foi desiludido... Por isso segue, fecha os olhos e acredita que se esse chão te faltar serão os meus braços abertos e o meu peito rasgado que encontrarás para te amparar a queda!
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O Engano
Não era de desistências. Sabia que algures, pendurada nos varais do futuro, estava a solução. Por ora, receita simples: esperar e recordar. Tudo começara naquele dia, como todos os outros dias, naquela hora de almoço, como todas as outras horas de almoço.
Chegara atrasado ao emprego porque tinha passado antes pela churrasqueira. Ao chegar a hora de almoço, dirigi-me ao parque de estacionamento, tirei o pacote de dentro do carro e segui para o refeitório.
Chegara atrasado ao emprego porque tinha passado antes pela churrasqueira. Ao chegar a hora de almoço, dirigi-me ao parque de estacionamento, tirei o pacote de dentro do carro e segui para o refeitório.
Ninguém esperava por mim, ninguém esperava pelo almoço que trouxera. Parado no meio do refeitório, olharam-me como se fosse repulsivo. Dei por mim, com o pacote na mão a enjoar-me com o seu cheiro a carne, a entrar progressivamente em pânico ao mesmo tempo que entendia o meu engano.
Revivi: a manhã tinha sido maquinal, como todas as outras manhãs. Mas só agora via! O lugar era parecido, mas não era o mesmo. As pessoas eram parecidas, mas não eram as mesmas. Quase a gritar conclui que me enganara. Saí quase a correr do refeitório, entrei no carro e fiz de volta o caminho até casa apenas com a angustiante questão a bradar dentro da minha cabeça: Onde é que me enganei?
De volta a casa. O mesmo caminho de todos os dias. Saí do carro, tirei a chave do bolso do casaco, afundei-a na fechadura e não rodou. Insisti escusadamente. Não rodava, a porta não abria. Descontrolados pelo pânico, os meus olhos escorreram água. Foi então que vi a casa. Era parecida, mas não era a mesma. Não era a minha casa. Sentei-me no degrau da porta. Estava perdido… Mas onde é que me enganei? - perguntava-me incessantemente.
De volta a casa. O mesmo caminho de todos os dias. Saí do carro, tirei a chave do bolso do casaco, afundei-a na fechadura e não rodou. Insisti escusadamente. Não rodava, a porta não abria. Descontrolados pelo pânico, os meus olhos escorreram água. Foi então que vi a casa. Era parecida, mas não era a mesma. Não era a minha casa. Sentei-me no degrau da porta. Estava perdido… Mas onde é que me enganei? - perguntava-me incessantemente.
Aquela era parecida, mas não era a minha vida. Onde é que me enganei? Acordei e não encontrei a minha vida. Por que porta havia eu entrado? Tudo em redor me agoniava, a perplexidade nauseava-me.
É necessário que me concentre e que pense. Que ache a resposta, que ache o momento em que a memória foi desacertada.
Onde me enganei eu?
terça-feira, 14 de julho de 2009
Sugus de Morango
Tardes intermináveis que acabam sempre como não desejo que terminem. Tardes intermináveis que desejo que nunca cheguem ao fim! As palavras brincam comigo no ecrã do computador, nos livros, nas bocas… Nunca as palavras que quero ouvir, nunca as palavras que deveria ouvir mesmo não querendo, palavras que não rasgam, nem remoçam, nem esventram, nem atingem.
A memória de ti estes dias comigo, olhar para ti e pensar na tua mulher e olhar para mim e pensar que eu poderia ser a mulher de alguém. A falta em interminável luta com a individualidade… Mas não! Nunca! Nunca pertencer a nada, nunca pertencer a ninguém! Mil vezes repetir se mil vezes forem necessárias: nunca mais voltar a cometer os mesmo erros! Então porquê? Porquê novamente a mesma possessão, o mesmo assombro, perdição, desilusão, raiva, mágoa e angústia, os mesmos erros?
Olhar a esquina por onde desapareceste e nunca mais tornaste. A esquina imaginária dentro da minha cabeça que não se apaga. A esquina onde me prostituo todos os dias acreditando que um dia serás tu quem me procura. O amor da minha vida, o meu marido, o homem da minha vida, a minha metade… Saudades quando ele me chamava “minha metade”, saudades quando ele me chamava “minha deusa”, “minha magnólia”, “mulher da minha vida”, “minha jóia do Nilo”… Saudades do que nunca foi mais que um sonho na minha cabeça, uma ilusão dos meus sentidos, uma bebedeira da minha racionalidade! Porque é que foste? Porque partiste? Porque tiveste de atravessar o Atlântico para eu não te ver? Porque não estás aqui, não me abraças e não me ensinas de novo a beijar? Eu esqueci o que é um beijo, e depois esqueci o que é o amor, e depois esqueci o que era a paixão, e depois esqueci o que era uma relação, até que finalmente esqueci quem eu própria era! E mesmo assim, se todos viessem, era a ti que eu escolhia, era a ti a quem entregaria a tão desejada Camelot, era a ti que faria rei para toda a eternidade! Mas nem eu largo a pedra, nem tu me puxas da pedra, nenhum torna, nenhum permito que torne, nunca, nunca mais!
Que venha toda a ânsia, toda a angústia, toda a felicidade, todos os homens e todas as mulheres.
Não largo esta pedra enquanto não for a tua mão a segurar-me, meu rei!
A memória de ti estes dias comigo, olhar para ti e pensar na tua mulher e olhar para mim e pensar que eu poderia ser a mulher de alguém. A falta em interminável luta com a individualidade… Mas não! Nunca! Nunca pertencer a nada, nunca pertencer a ninguém! Mil vezes repetir se mil vezes forem necessárias: nunca mais voltar a cometer os mesmo erros! Então porquê? Porquê novamente a mesma possessão, o mesmo assombro, perdição, desilusão, raiva, mágoa e angústia, os mesmos erros?
Olhar a esquina por onde desapareceste e nunca mais tornaste. A esquina imaginária dentro da minha cabeça que não se apaga. A esquina onde me prostituo todos os dias acreditando que um dia serás tu quem me procura. O amor da minha vida, o meu marido, o homem da minha vida, a minha metade… Saudades quando ele me chamava “minha metade”, saudades quando ele me chamava “minha deusa”, “minha magnólia”, “mulher da minha vida”, “minha jóia do Nilo”… Saudades do que nunca foi mais que um sonho na minha cabeça, uma ilusão dos meus sentidos, uma bebedeira da minha racionalidade! Porque é que foste? Porque partiste? Porque tiveste de atravessar o Atlântico para eu não te ver? Porque não estás aqui, não me abraças e não me ensinas de novo a beijar? Eu esqueci o que é um beijo, e depois esqueci o que é o amor, e depois esqueci o que era a paixão, e depois esqueci o que era uma relação, até que finalmente esqueci quem eu própria era! E mesmo assim, se todos viessem, era a ti que eu escolhia, era a ti a quem entregaria a tão desejada Camelot, era a ti que faria rei para toda a eternidade! Mas nem eu largo a pedra, nem tu me puxas da pedra, nenhum torna, nenhum permito que torne, nunca, nunca mais!
Que venha toda a ânsia, toda a angústia, toda a felicidade, todos os homens e todas as mulheres.
Não largo esta pedra enquanto não for a tua mão a segurar-me, meu rei!
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